Telemetria nacional: tecnologia, engenharia e suporte locais
A gestão de frotas deixou de ser uma atividade baseada apenas em experiência operacional. Hoje, dados de condução, consumo, manutenção, localização, utilização dos veículos e comportamento dos motoristas fazem parte das decisões estratégicas de empresas de transporte. Nesse cenário, escolher uma solução de telemetria nacional não significa apenas optar por uma tecnologia produzida no Brasil. Significa contar com uma solução capaz de compreender as particularidades das operações brasileiras, com engenharia próxima, suporte acessível e capacidade de adaptação às diferentes realidades das frotas.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante do avanço da digitalização e da necessidade de aumentar produtividade, eficiência e competitividade. O próprio Governo Federal vem tratando o desenvolvimento tecnológico nacional como elemento estratégico. No eixo de Adensamento Tecnológico, o Ministério da Fazenda destaca que a inovação deve contribuir para aumentar a produtividade, gerar maior valor agregado, fortalecer cadeias produtivas e criar empregos qualificados.
Para o setor de transporte, isso representa uma oportunidade importante: transformar tecnologia em inteligência operacional sem perder de vista as características específicas do mercado brasileiro.
O que realmente significa ter tecnologia nacional?
É importante fazer uma distinção.
Uma empresa pode utilizar equipamentos fabricados no exterior e, ainda assim, desenvolver software, engenharia, integração, análise de dados e suporte no Brasil. Portanto, quando falamos em tecnologia nacional, não estamos necessariamente falando de cada componente físico produzido internamente.
Estamos falando principalmente de capacidade tecnológica desenvolvida para atender às necessidades do mercado brasileiro, com conhecimento local, profissionais especializados e capacidade de evolução da solução dentro da realidade das operações nacionais.
Essa diferença é fundamental.
Uma frota brasileira apresenta características que não podem ser simplesmente tratadas como uma variável dentro de um sistema desenvolvido para outro mercado. Condições de pavimento, topografia, clima, congestionamentos, modelos de operação, legislação, perfil de condução, características dos veículos e particularidades das empresas de transporte influenciam diretamente os indicadores operacionais.
É nesse ponto que uma telemetria nacional pode apresentar uma vantagem estratégica: a proximidade entre quem desenvolve a tecnologia e quem utiliza a solução.
O Brasil, inclusive, vem ampliando políticas voltadas ao fortalecimento dessa capacidade. Em 2025, o MCTI informou investimentos de R$ 267 milhões em projetos estratégicos de TICs, crescimento de 116% em relação a 2024. O ministério relacionou esse movimento ao fortalecimento da autonomia e da soberania tecnológica brasileira.
Engenharia local: tecnologia que entende a operação
Telemetria não é simplesmente instalar um dispositivo no veículo e receber informações em uma tela.
O verdadeiro valor está na capacidade de transformar dados em decisões.
Para isso, é necessário compreender como os veículos trabalham, como os motoristas conduzem, quais são as características das rotas e quais indicadores realmente impactam o resultado da operação.
Uma engenharia local facilita esse processo.
Quando a equipe técnica está próxima da operação, torna-se mais fácil investigar situações específicas, compreender particularidades de determinados veículos, avaliar novas necessidades e adaptar funcionalidades.
Imagine, por exemplo, uma empresa que opera uma frota heterogênea composta por ônibus urbanos, veículos rodoviários, caminhões, vans ou veículos de serviço.
Cada grupo possui necessidades diferentes.
Um ônibus urbano pode exigir atenção especial para frenagens, acelerações, marcha lenta, excesso de rotação, condução econômica e regeneração de energia em veículos elétricos.
Uma operação rodoviária pode priorizar velocidade, jornada, comportamento do motorista, consumo, segurança e manutenção.
Já uma frota de distribuição pode estar mais concentrada em produtividade, utilização do veículo, rotas, paradas e comportamento operacional.
A tecnologia precisa acompanhar essas diferenças.
É justamente por isso que engenharia não deve ser vista apenas como desenvolvimento de software. Ela também representa a capacidade de interpretar problemas operacionais e transformá-los em soluções tecnológicas.
Suporte local reduz a distância entre problema e solução
Outro ponto frequentemente subestimado na escolha de uma plataforma de telemetria é o suporte.
Em uma operação de transporte, um problema tecnológico pode rapidamente se transformar em um problema operacional.
Se um equipamento deixa de transmitir dados, se determinada informação apresenta comportamento inesperado ou se a empresa precisa interpretar um indicador específico, o tempo de resposta passa a ter importância.
Ter atendimento no próprio país pode reduzir barreiras de comunicação, facilitar o entendimento do contexto e aproximar as equipes técnica e operacional.
Mais do que falar o mesmo idioma, significa compartilhar referências de mercado.
Um profissional brasileiro consegue compreender com maior facilidade uma situação relacionada à operação urbana, às características de uma determinada região, à legislação nacional ou aos desafios específicos de uma frota.
Isso não significa que soluções internacionais sejam necessariamente inadequadas. Significa que proximidade pode ser um diferencial competitivo quando a tecnologia precisa acompanhar uma operação dinâmica.
O próprio desenvolvimento do setor de serviços tecnológicos brasileiro demonstra a relevância dessa cadeia. Segundo o IBGE, os serviços de tecnologia da informação apresentaram crescimento de 7,8% no acumulado de 12 meses até dezembro de 2024, enquanto o volume de serviços de TIC cresceu 6,3% no mesmo período.
Ou seja, existe no Brasil uma cadeia de conhecimento capaz de desenvolver, implementar e sustentar soluções tecnológicas sofisticadas.
Uma frota nacional exige uma tecnologia preparada para diferentes realidades
Outro grande desafio do mercado brasileiro é a diversidade.
Não existe uma única operação de transporte.
Existem grandes empresas com centenas ou milhares de veículos, médias empresas, pequenas operações, transportadores autônomos, empresas de fretamento, transporte urbano, transporte rodoviário, logística, distribuição e operações especializadas.
Os próprios dados da Senatran mostram a dimensão e a diversidade da frota brasileira, com informações disponibilizadas por unidade federativa, município, tipo de veículo, combustível, marca, modelo, potência e outras características.
Essa diversidade exige flexibilidade.
Uma solução de gestão de frotas precisa ser capaz de trabalhar com diferentes veículos, diferentes tecnologias embarcadas e diferentes objetivos operacionais.
Por isso, o conceito de atender todos os tipos de frotas nacionais vai além de simplesmente suportar diferentes modelos de veículos.
Significa compreender diferentes modelos de negócio.
Telemetria precisa conversar com a estratégia da empresa
O erro mais comum na implantação de telemetria é enxergar a tecnologia apenas como ferramenta de monitoramento.
Monitorar é importante.
Mas monitorar sem agir gera pouco resultado.
O verdadeiro potencial aparece quando os dados são utilizados para responder perguntas estratégicas:
- Quais veículos apresentam maior consumo?
- Quais motoristas apresentam comportamentos que aumentam o desgaste?
- Quais rotas apresentam maior dificuldade operacional?
- Onde existe excesso de marcha lenta?
- Quais veículos estão apresentando sinais de anormalidade?
- Onde existem oportunidades de manutenção preventiva?
- Qual comportamento está relacionado ao aumento de consumo?
- Quais indicadores precisam ser acompanhados diariamente?
- Quais motoristas precisam de orientação?
- Quais ações realmente geraram economia?
Nesse modelo, a telemetria deixa de ser um sistema de localização e passa a funcionar como uma plataforma de inteligência operacional.
E essa inteligência precisa estar conectada à realidade de cada empresa.
Tecnologia nacional também significa capacidade de evolução
Outro benefício importante está na possibilidade de desenvolver a solução de maneira alinhada às necessidades do mercado.
O ambiente tecnológico brasileiro está passando por um movimento de fortalecimento da inovação. Em 2025, Finep e BNDES informaram R$ 14 bilhões em crédito aprovado para projetos de inovação no âmbito da Nova Indústria Brasil apenas entre janeiro e setembro. Desde 2023, as duas instituições haviam destinado R$ 57,7 bilhões em crédito para projetos relacionados à digitalização e desenvolvimento tecnológico.
O BNDES também informou que, entre janeiro de 2023 e junho de 2025, aprovou R$ 21,9 bilhões em financiamentos para inovação, valor superior ao total aprovado nos oito anos anteriores.
Esses movimentos mostram que tecnologia e inovação passaram a ocupar uma posição cada vez mais estratégica na economia brasileira.
Para o setor de transportes, isso abre espaço para soluções desenvolvidas não apenas para monitorar veículos, mas para integrar dados, inteligência artificial, manutenção, segurança, economia de combustível, eletrificação e gestão de pessoas.
O mercado de veículos também está se transformando
A própria indústria automotiva brasileira evidencia essa transformação.
Dados da ANFAVEA mostram que a produção de ônibus passou de 6,5 mil unidades no primeiro trimestre de 2024 para 7,2 mil no mesmo período de 2025, crescimento de 10,5%.
No acumulado de janeiro a agosto de 2025, a produção de ônibus chegou a 21,2 mil unidades, contra 19 mil no mesmo período de 2024, alta de 11,7%.
Ao mesmo tempo, a indústria passa por transformações relacionadas à eletrificação, conectividade, eficiência energética e novas arquiteturas veiculares.
Isso aumenta a importância da telemetria.
Quanto mais sofisticado o veículo, maior tende a ser a quantidade de dados disponíveis.
E quanto maior o volume de dados, maior a necessidade de transformar informação em conhecimento operacional.
A próxima geração da gestão de frotas será baseada em dados
O futuro da gestão de frotas não está apenas em saber onde o veículo está.
Está em entender por que ele está operando daquela maneira e o que pode ser feito para melhorar o resultado.
Uma plataforma moderna pode conectar diferentes dimensões da operação:
Segurança: identificação de excesso de velocidade, acelerações e frenagens inadequadas e outros eventos de risco.
Economia: análise de consumo, condução, marcha lenta e utilização eficiente do veículo.
Manutenção: acompanhamento de indicadores que ajudam a identificar comportamentos e condições que podem antecipar problemas.
Produtividade: análise de utilização, rotas, paradas e desempenho operacional.
Motoristas: acompanhamento de indicadores para treinamento, orientação e desenvolvimento.
Sustentabilidade: redução de desperdícios, consumo energético e emissões associadas à operação.
A telemetria nacional ganha relevância justamente quando todos esses elementos precisam ser interpretados considerando a realidade brasileira.
Por que a proximidade importa?
Em tecnologia para frotas, proximidade não deve ser confundida com simples presença física.
Ela envolve quatro dimensões:
Proximidade técnica: profissionais capazes de compreender o problema e atuar sobre a solução.
Proximidade operacional: conhecimento das características das frotas e de suas rotinas.
Proximidade comercial: relacionamento mais próximo e capacidade de entender objetivos de negócio.
Proximidade de suporte: menor distância entre a identificação de um problema e sua resolução.
Esse conjunto pode representar uma vantagem significativa para empresas que dependem da disponibilidade de seus veículos.
Afinal, uma frota parada não representa apenas um problema tecnológico. Representa perda de produtividade, receita e eficiência.
Kontrow: tecnologia desenvolvida para a realidade das frotas brasileiras
É nesse contexto que a Kontrow posiciona sua proposta.
Mais do que oferecer telemetria, a empresa atua na combinação entre tecnologia, engenharia, dados e conhecimento operacional para transformar informações da frota em inteligência para a tomada de decisão.
A proposta parte de uma premissa simples: cada frota possui uma realidade própria.
Por isso, a tecnologia precisa ser capaz de acompanhar diferentes tipos de veículos, diferentes operações e diferentes objetivos.
Do transporte urbano ao rodoviário, de veículos convencionais aos elétricos, de pequenas operações a grandes frotas, a necessidade é a mesma: transformar dados em ações capazes de gerar eficiência.
O diferencial de uma solução nacional está justamente na possibilidade de construir essa evolução próxima do mercado que utiliza a tecnologia.
Tecnologia nacional não é apenas uma escolha tecnológica
Escolher uma solução desenvolvida no Brasil pode representar muito mais do que uma decisão sobre software ou equipamentos.
É uma decisão sobre proximidade.
Sobre engenharia.
Sobre capacidade de adaptação.
Sobre suporte.
Sobre conhecimento do mercado.
E, principalmente, sobre a possibilidade de transformar tecnologia em uma ferramenta realmente conectada aos desafios da operação brasileira.
O movimento de fortalecimento da inovação nacional mostra que o Brasil possui uma agenda crescente de desenvolvimento tecnológico, digitalização, produtividade e soberania tecnológica. O Governo Federal vem destacando justamente a importância de fortalecer cadeias produtivas, conteúdo tecnológico nacional e capacidade de inovação.
Para o setor de transporte, essa discussão é ainda mais relevante.
Porque a tecnologia só entrega valor quando consegue acompanhar a realidade de quem está na estrada, na garagem, no centro de operação e no dia a dia da frota.
Tecnologia pode gerar dados. Engenharia transforma dados em soluções. E conhecimento local transforma soluções em resultados.
É essa combinação que torna a tecnologia nacional uma alternativa estratégica para empresas que buscam não apenas monitorar suas frotas, mas entender, controlar e melhorar continuamente sua operação.
Fontes utilizadas e verificadas
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação — indicadores e políticas de soberania tecnológica. (Serviços e Informações do Brasil)
- IBGE — Pesquisa Mensal de Serviços e desempenho dos serviços de TIC. (Agência de Notícias IBGE)
- Ministério dos Transportes/Senatran — dados da frota nacional de veículos. (Serviços e Informações do Brasil)
- Ministério da Fazenda — Adensamento Tecnológico e Nova Indústria Brasil. (Serviços e Informações do Brasil)
- Finep — investimentos em inovação no âmbito da Nova Indústria Brasil.
- BNDES — financiamento e apoio à inovação. (Agência de Notícias BNDES)
- ANFAVEA — produção brasileira de caminhões e ônibus. (Anfavea)
Dia Nacional do Caminhoneiro: quem move o Brasil pelas estradas
Poucas profissões têm uma relação tão direta com o funcionamento da economia brasileira quanto a de caminhoneiro. Todos os dias, milhares de profissionais percorrem rodovias para transportar alimentos, combustíveis, medicamentos, matérias-primas, máquinas, peças, produtos industrializados e praticamente tudo aquilo que chega às cidades brasileiras.
O Dia Nacional do Caminhoneiro é celebrado oficialmente em 16 de setembro, conforme determina a Lei nº 11.927, de 17 de abril de 2009. A legislação, sancionada durante o exercício da Presidência da República por José Alencar, instituiu a data em âmbito nacional.
Mas a importância dessa data vai muito além de uma homenagem. Ela representa uma oportunidade para discutir o papel estratégico do motorista profissional, os desafios enfrentados nas estradas e, principalmente, como tecnologia, gestão, segurança e valorização profissional podem transformar a atividade de transporte.
Um setor que sustenta a economia brasileira
O Brasil possui dimensões continentais e uma economia fortemente dependente do transporte terrestre. A distribuição de mercadorias entre produtores, indústrias, centros de distribuição, portos, supermercados e consumidores depende de uma complexa rede logística na qual o caminhão ocupa posição central.
Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) apontam que o transporte rodoviário responde por aproximadamente 64,9% das cargas movimentadas no país, evidenciando a relevância do modal para a economia nacional.
A dimensão do setor também pode ser observada pelos dados mais recentes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A agência informa cerca de 860 mil transportadores cadastrados, entre empresas, transportadores autônomos e cooperativas, além de aproximadamente 1,7 milhão de veículos de tração e 1 milhão de implementos rodoviários.
Esses números ajudam a dimensionar uma realidade que muitas vezes passa despercebida: o caminhoneiro não é apenas quem conduz um veículo de carga. Ele faz parte de uma cadeia logística essencial para o abastecimento, a indústria, o agronegócio, o comércio exterior e o consumo diário da população.
O Anuário do Transporte Rodoviário de Cargas 2025 da ANTT mostra ainda a dimensão da movimentação de mercadorias. Em 2025, os volumes mensais registrados ficaram próximos ou acima de 100 milhões de toneladas em boa parte do ano, alcançando aproximadamente 129,6 milhões de toneladas em agosto.
Ou seja: quando um caminhão para, não é apenas um veículo que deixa de circular. Dependendo da operação, uma interrupção pode afetar produção, abastecimento, distribuição e prazos de toda uma cadeia.
O caminhoneiro por trás dos números
Por trás de milhões de toneladas transportadas existem profissionais que enfrentam longas jornadas, diferentes condições climáticas, congestionamentos, estradas de qualidade variável, pressão por produtividade, necessidade de cumprir horários e responsabilidade permanente pela segurança da carga e das pessoas.
A própria ANTT mantém um painel específico sobre o perfil dos motoristas de caminhão, utilizando informações da RAIS e do CAGED para acompanhar aspectos como quantidade de profissionais, remuneração, idade, escolaridade, sexo, localização e tempo de permanência nas empresas.
O infográfico de perfil e remuneração publicado pela ANTT em 2025 mostra que havia 713.229 motoristas de caminhão com vínculos formais em 2024, contra 701.285 em 2023. A remuneração mediana em 2024 foi de R$ 3.120, enquanto a folha anual desses profissionais alcançou aproximadamente R$ 29,4 bilhões, sem considerar 13º salário, encargos e alguns outros componentes.
Outro dado chama atenção: motoristas com pelo menos dez anos na mesma empresa apresentaram remuneração média superior à dos recém-contratados, segundo a ANTT. Isso demonstra como experiência, permanência e conhecimento operacional são ativos relevantes dentro do transporte.
Valorizar esse profissional, portanto, não significa apenas reconhecer sua importância em uma data comemorativa. Significa criar condições para que experiência, conhecimento e comportamento seguro sejam transformados em resultados operacionais.
Segurança: tecnologia também pode salvar vidas
Se existe um tema que precisa estar no centro das discussões sobre transporte rodoviário, é segurança.
Em 2025, a Polícia Rodoviária Federal registrou mais de 72 mil sinistros de trânsito nas rodovias federais, com aproximadamente 6 mil mortes. Embora tenha ocorrido redução em relação a 2024, os números continuam mostrando a dimensão do desafio da segurança viária.
O Anuário Estatístico da PRF mostra outro ponto importante: entre as principais causas presumíveis de sinistros aparecem comportamentos relacionados à atuação do condutor, como ausência de reação e reação tardia ou ineficiente. Em 2025, a PRF também registrou mais de 7,2 milhões de autuações por excesso de velocidade, número recorde da série histórica apresentada pela instituição.
Esses dados não significam que o motorista seja o único responsável pelos acidentes. Segurança viária é resultado de um sistema que envolve infraestrutura, veículo, manutenção, legislação, condições climáticas, gestão e comportamento humano.
Mas existe uma oportunidade clara para a tecnologia atuar justamente onde a informação pode antecipar riscos.
É nesse contexto que a telemetria deixa de ser apenas uma ferramenta para localizar veículos.
De rastreamento para inteligência operacional
Durante muito tempo, falar em tecnologia para transporte significava pensar principalmente em localização.
Hoje, a realidade é muito diferente.
Soluções modernas de telemetria permitem transformar dados do veículo e da operação em indicadores capazes de apoiar decisões relacionadas a segurança, consumo, manutenção e produtividade.
É possível acompanhar, por exemplo:
- excesso de velocidade;
- acelerações e frenagens bruscas;
- tempo em marcha lenta;
- rotação do motor;
- consumo de combustível;
- utilização do freio motor;
- comportamento em diferentes trechos;
- distância percorrida;
- eventos de condução;
- desempenho por motorista;
- desempenho por veículo;
- desempenho por rota;
- indicadores de manutenção;
- padrões de utilização do veículo.
A diferença fundamental está na forma como esses dados são utilizados.
Uma empresa pode simplesmente receber alertas.
Ou pode utilizar os dados para construir uma cultura de melhoria contínua.
Essa segunda abordagem é especialmente importante quando falamos de caminhoneiros.
Telemetria não deve ser sinônimo de punição
Existe uma diferença enorme entre monitorar um motorista e desenvolver um motorista.
Quando a tecnologia é utilizada apenas para procurar erros, o motorista pode enxergá-la como uma ferramenta de fiscalização.
Quando os dados são utilizados para identificar oportunidades de melhoria, a percepção muda.
Um excesso de rotação pode indicar necessidade de orientação.
Uma sequência de frenagens bruscas pode revelar um comportamento que precisa ser trabalhado.
Longos períodos de marcha lenta podem representar desperdício de combustível.
Uma condução agressiva pode aumentar simultaneamente consumo, desgaste mecânico e risco operacional.
O papel da gestão é conectar essas informações.
Um bom programa de telemetria precisa responder perguntas como:
O que aconteceu?
Onde aconteceu?
Com que frequência aconteceu?
Qual foi o impacto?
Existe um padrão de comportamento?
Qual orientação deve ser aplicada?
O comportamento melhorou depois da intervenção?
Essa última pergunta é particularmente importante.
Sem acompanhamento da evolução, a telemetria corre o risco de se transformar em um grande banco de dados sem capacidade real de gerar transformação.
Economia de combustível também passa pelo comportamento
Em operações de transporte, combustível representa uma parcela relevante dos custos operacionais. Por isso, pequenas diferenças de eficiência podem gerar impactos significativos quando multiplicadas por centenas de veículos e milhares de quilômetros.
O comportamento do motorista influencia diretamente o aproveitamento energético do veículo.
Acelerações desnecessárias, excesso de velocidade, frenagens frequentes, utilização inadequada das faixas de rotação e longos períodos de funcionamento sem necessidade são exemplos de comportamentos que podem comprometer a eficiência.
Por isso, a gestão de combustível não deveria começar e terminar no preço pago pelo litro do diesel.
É necessário observar quanto foi consumido, onde foi consumido, em quais condições e por qual padrão de condução.
A telemetria permite justamente essa mudança de perspectiva: sair de uma análise puramente financeira e avançar para uma análise operacional.
Manutenção também começa na condução
Motorista e manutenção estão mais conectados do que muitas empresas percebem.
Uma condução inadequada pode aumentar esforços sobre componentes, elevar temperaturas, acelerar desgastes e contribuir para intervenções prematuras.
Da mesma forma, um veículo com comportamento anormal pode fornecer sinais que ajudam a equipe de manutenção a investigar uma possível falha antes que ela se transforme em uma parada inesperada.
É aqui que a integração entre telemetria e manutenção ganha relevância.
Em vez de trabalhar exclusivamente com manutenção corretiva — quando o problema já aconteceu —, a empresa pode utilizar dados para identificar tendências.
A lógica é simples:
dado → indicador → tendência → diagnóstico → ação.
Quanto mais cedo uma anomalia é identificada, maior tende a ser a capacidade da gestão de planejar uma intervenção.
O futuro do caminhoneiro será cada vez mais conectado
A transformação digital do transporte rodoviário não significa substituir a experiência do caminhoneiro.
Significa potencializá-la.
O profissional que conhece uma rota, entende o comportamento do veículo, reconhece condições adversas e sabe interpretar a estrada possui um conhecimento que nenhum sistema consegue simplesmente substituir.
A tecnologia entra como uma camada adicional de inteligência.
Ela consegue registrar milhares de eventos que seriam impossíveis de acompanhar manualmente e transformar esses eventos em informações para apoiar decisões.
A própria ANTT vem ampliando a utilização de dados digitais no acompanhamento do transporte rodoviário de cargas. Seu hub de dados integra informações de diferentes bases, incluindo MDF-e, RNTRC, mercado de trabalho, combustíveis, frota e movimentação de cargas.
Esse movimento mostra uma tendência importante: o futuro da gestão de transporte será cada vez mais orientado por dados.
Para o caminhoneiro, isso pode significar mais segurança, melhor acompanhamento profissional, treinamento mais direcionado e reconhecimento baseado em indicadores objetivos.
Para as empresas, significa maior controle, eficiência e capacidade de tomada de decisão.
Mais do que homenagear, é preciso valorizar
O Dia Nacional do Caminhoneiro deve ser uma oportunidade para olhar para a profissão além do volante.
Valorizar o caminhoneiro significa reconhecer que eficiência operacional depende de pessoas preparadas.
Significa investir em treinamento.
Significa melhorar as condições de trabalho.
Significa utilizar tecnologia para prevenir riscos em vez de simplesmente apontar erros.
Significa transformar dados em orientação.
Significa reconhecer bons comportamentos.
E significa compreender que segurança, economia e produtividade não são objetivos separados.
Uma condução mais eficiente pode reduzir consumo.
Uma condução mais segura pode reduzir riscos.
Uma manutenção melhor planejada pode reduzir paradas.
Uma gestão baseada em dados pode melhorar todos esses indicadores simultaneamente.
O caminhoneiro move o Brasil. A tecnologia pode ajudá-lo a mover melhor.
O Dia Nacional do Caminhoneiro representa o reconhecimento oficial de uma categoria indispensável para o país. A legislação estabeleceu a data, mas são os milhões de quilômetros percorridos diariamente que demonstram, na prática, sua importância.
Os números da ANTT mostram a dimensão da estrutura do transporte rodoviário. Os dados da CNT evidenciam o peso do modal na matriz brasileira. E as estatísticas da PRF reforçam que ainda existe um enorme espaço para avançarmos em segurança.
Nesse cenário, tecnologia e pessoas precisam caminhar juntas.
Telemetria não deve substituir experiência.
Deve transformar experiência em conhecimento mensurável.
Não deve servir apenas para encontrar culpados.
Deve ajudar a encontrar oportunidades.
Não deve ser apenas um sistema de monitoramento.
Deve ser uma ferramenta de gestão, educação, segurança, eficiência e valorização profissional.
Porque, no final das contas, cada indicador representa uma viagem. Cada viagem representa um profissional. E cada profissional tem a responsabilidade de levar uma carga ao destino — enquanto ajuda o Brasil inteiro a continuar funcionando.
Neste Dia Nacional do Caminhoneiro, mais do que dizer obrigado, é hora de reconhecer, investir, proteger e valorizar quem faz o Brasil chegar mais longe.
Fontes consultadas e dados utilizados
- Lei nº 11.927/2009 — Planalto
- Lei nº 11.927/2009 — Câmara dos Deputados
- ANTT — Dados do Transporte Rodoviário de Cargas
- ANTT — Perfil dos Motoristas de Caminhão
- ANTT — Anuário TRC 2025
- PRF — Anuário Estatístico 2025
Direção segura x condições atmosféricas: como o clima muda o risco ao volante
Dirigir com segurança não significa apenas respeitar limites de velocidade, sinalização e regras de trânsito. A condução também precisa se adaptar ao ambiente. Chuva, neblina, cerração, vento forte, baixa visibilidade, pista molhada e até mudanças bruscas nas condições atmosféricas podem alterar significativamente a forma como um veículo responde aos comandos do motorista.
Esse é um ponto especialmente importante para frotas profissionais, nas quais motoristas percorrem centenas de quilômetros diariamente e estão expostos a diferentes condições de tráfego e clima. Nesse cenário, direção segura e condições atmosféricas precisam ser analisadas em conjunto.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) considera as condições climáticas um dos elementos que podem contribuir para a ocorrência de sinistros, ao lado de fatores relacionados ao veículo, à via e ao comportamento humano. (Serviços e Informações do Brasil)
Os dados mais recentes mostram a dimensão do desafio. Em 2025, as rodovias federais brasileiras registraram 72.529 sinistros de trânsito, 6.043 mortes e 83.550 pessoas feridas, segundo o Anuário Estatístico 2025 da PRF. Embora condições atmosféricas não sejam responsáveis isoladamente por esses eventos, elas podem potencializar outros fatores de risco, principalmente velocidade inadequada, baixa visibilidade, distância insuficiente e reações tardias. (Serviços e Informações do Brasil)
Direção segura começa antes de o veículo sair
Uma das maiores falhas na gestão da segurança viária é tratar as condições atmosféricas como um problema que começa somente quando o motorista encontra chuva ou neblina.
Na realidade, a prevenção começa antes da partida.
Em uma operação profissional, o planejamento deve considerar:
- previsão meteorológica;
- condição das rodovias;
- características do trajeto;
- horário da viagem;
- histórico de pontos críticos;
- condição dos pneus;
- funcionamento dos freios;
- limpadores e lavadores de para-brisa;
- sistemas de iluminação;
- condições de visibilidade;
- comportamento esperado do motorista.
A PRF recomenda verificar pneus, freios, limpadores de para-brisa e sistemas de iluminação antes de viagens em períodos chuvosos. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso demonstra uma mudança importante de perspectiva: segurança não é apenas uma reação ao risco; é uma estratégia de antecipação.
Para empresas de transporte, essa antecipação pode ser incorporada aos procedimentos operacionais e também aos sistemas de telemetria.
O que muda quando começa a chover?
A chuva modifica várias condições simultaneamente.
Primeiro, existe a redução da aderência entre pneu e pavimento. Depois, aparece a redução da visibilidade. Dependendo da intensidade, a água pode formar uma lâmina sobre o pavimento e aumentar o risco de aquaplanagem.
A própria PRF destaca que, sob chuva, a água combinada ao acúmulo de sujeira e óleo na pista pode tornar o pavimento mais escorregadio. Poças também podem provocar perda de controle do veículo. (Serviços e Informações do Brasil)
O problema fica ainda maior quando o motorista mantém exatamente o mesmo comportamento utilizado em pista seca.
Essa é uma das principais questões de direção segura e condições atmosféricas: o motorista precisa adaptar sua condução à realidade que está encontrando naquele momento.
Uma velocidade que pode ser adequada em uma pista seca pode ser inadequada em uma pista molhada.
Uma distância considerada suficiente em condições normais pode não proporcionar a mesma margem de segurança durante uma chuva intensa.
Uma ultrapassagem simples em uma situação de boa visibilidade pode se tornar uma manobra de alto risco quando existe spray de água, baixa visibilidade e pavimento escorregadio.
Aquaplanagem: quando o pneu perde contato com o pavimento
Um dos fenômenos mais perigosos durante a chuva é a aquaplanagem.
Ela ocorre quando os pneus não conseguem deslocar adequadamente a água existente sobre o pavimento e acabam perdendo contato suficiente com a superfície da pista.
Nesse momento, o motorista pode perceber uma redução repentina da capacidade de direção e de frenagem.
A PRF relaciona a ocorrência de aquaplanagem ao excesso de água na pista, à velocidade elevada e à insuficiência dos sulcos dos pneus. (Serviços e Informações do Brasil)
Por isso, pneus não devem ser tratados apenas como um item de manutenção.
Eles são componentes diretamente relacionados à segurança operacional.
Para uma frota, isso significa que indicadores de manutenção e comportamento do motorista precisam conversar entre si.
Se determinado veículo apresenta histórico de circulação em condições severas e, ao mesmo tempo, possui pneus próximos do limite de desgaste, a gestão deve considerar essa combinação como um risco operacional.
Velocidade: o fator que amplifica as consequências
Entre todos os elementos associados à condução em condições atmosféricas adversas, a velocidade merece atenção especial.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o aumento da velocidade média está diretamente relacionado à probabilidade de ocorrência de colisões e à gravidade das consequências. Segundo a organização, cada aumento de 1% na velocidade média está associado a aproximadamente 4% de aumento no risco de acidente fatal e 3% no risco de acidente grave. (Organização Mundial da Saúde)
Isso não significa simplesmente que o motorista deve "andar devagar".
A questão é mais sofisticada: a velocidade precisa ser compatível com as condições reais de operação.
É possível estar abaixo do limite regulamentar e ainda assim conduzir rápido demais para determinada situação.
Imagine um ônibus urbano circulando a 50 km/h em uma avenida seca, com boa visibilidade, tráfego fluindo e pavimento em boas condições.
Agora imagine os mesmos 50 km/h durante uma chuva intensa, com spray provocado pelos demais veículos, faixa de pedestres próxima, pavimento molhado e distância reduzida para o veículo da frente.
O número no velocímetro é o mesmo.
O risco não é.
É justamente por isso que a direção segura precisa considerar o contexto operacional.
Distância segura: tempo para perceber, decidir e agir
Quando as condições atmosféricas pioram, a distância em relação ao veículo da frente ganha ainda mais importância.
O motorista não precisa apenas de espaço para frear. Ele precisa de tempo para:
- perceber um obstáculo;
- interpretar a situação;
- tomar uma decisão;
- retirar o pé do acelerador;
- acionar o freio;
- controlar o veículo;
- parar ou desviar com segurança.
Em uma situação de chuva, a visibilidade pode diminuir e a eficiência da frenagem pode ser afetada pelas condições do pavimento.
Por isso, a PRF recomenda ampliar a distância entre veículos e redobrar a atenção em curvas e frenagens. (Serviços e Informações do Brasil)
Em frotas, esse comportamento pode ser monitorado por telemetria.
Eventos de proximidade, frenagens bruscas, acelerações, velocidades incompatíveis e outros indicadores podem ser analisados em conjunto para identificar padrões de condução.
Neblina e cerração: quando enxergar vira o principal desafio
Nem todas as condições atmosféricas adversas envolvem chuva.
Neblina e cerração podem reduzir drasticamente a visibilidade e dificultar a identificação de veículos, pedestres, obstáculos e sinalização.
Nessas situações, o motorista precisa reduzir a velocidade e aumentar a margem de segurança.
A PRF orienta que, em situações de chuva, neblina ou cerração, o condutor utilize velocidade moderada, inferior à empregada em condições climáticas favoráveis, mantenha distância segura e evite manobras bruscas. (Serviços e Informações do Brasil)
Um erro comum é acreditar que manter a velocidade constante representa maior controle.
Na realidade, quando a visibilidade cai, manter uma velocidade incompatível pode reduzir drasticamente o tempo disponível para reação.
Chuva forte: quando continuar viagem deixa de ser a melhor decisão
Existe um momento em que a condução defensiva deixa de significar "dirigir com mais cuidado" e passa a significar interromper temporariamente a operação.
Quando a chuva está muito intensa e a visibilidade fica comprometida, insistir na viagem pode aumentar desnecessariamente a exposição ao risco.
A orientação da PRF é clara: em situações de chuva forte ou baixa visibilidade, o motorista deve procurar um local seguro e aguardar a melhora das condições antes de continuar. (Serviços e Informações do Brasil)
Essa orientação é particularmente relevante para gestores de transporte.
Uma cultura operacional que valoriza apenas produtividade, cumprimento de horários e quilometragem pode criar pressão indireta sobre o motorista.
Por outro lado, uma cultura de segurança entende que atrasar uma viagem é menos grave do que provocar um sinistro.
Condições atmosféricas não devem ser analisadas isoladamente
Outro ponto importante é evitar a interpretação de que "a chuva causa acidentes".
A chuva é uma condição adversa.
O risco surge da combinação entre essa condição e outros elementos.
A própria PRF destaca que comportamentos como velocidade incompatível, distração, pneus desgastados e distância insuficiente aumentam o risco durante a chuva. (Serviços e Informações do Brasil)
Podemos representar esse risco de forma simplificada:
Condição atmosférica adversa + comportamento inadequado + veículo/infraestrutura inadequados = aumento do risco operacional.
Essa visão é fundamental para empresas que desejam reduzir sinistros.
Se a gestão atribui tudo ao clima, perde a oportunidade de atuar sobre aquilo que pode controlar: comportamento, manutenção, treinamento, planejamento e monitoramento.
Onde entra a telemetria na direção segura?
A telemetria transforma eventos da operação em dados que podem ser analisados.
Em segurança viária, isso permite sair de uma abordagem baseada apenas em relatos e partir para uma gestão orientada por evidências.
Por exemplo, uma empresa pode acompanhar:
- excesso de velocidade;
- velocidade média;
- acelerações bruscas;
- frenagens bruscas;
- curvas agressivas;
- tempo de condução;
- períodos de marcha lenta;
- utilização do veículo;
- localização dos eventos;
- recorrência de determinados comportamentos;
- desempenho por motorista;
- desempenho por veículo;
- desempenho por rota.
Mas existe uma oportunidade ainda maior: cruzar comportamento com contexto.
Imagine identificar que determinado motorista apresenta aumento significativo de frenagens bruscas em determinados trechos durante períodos chuvosos.
O problema deixa de ser simplesmente "o motorista freia bruscamente".
A análise passa a investigar:
- a rota possui pontos críticos?
- existe acúmulo de água?
- há cruzamentos com alta ocorrência de eventos?
- a velocidade praticada está adequada?
- o motorista recebeu orientação específica?
- o veículo está com pneus em boas condições?
- existe algum problema de infraestrutura?
- outros motoristas apresentam o mesmo padrão?
Essa abordagem transforma a telemetria em uma ferramenta de gestão de risco, e não apenas em um sistema de monitoramento.
O papel do gestor de frota
A segurança não pode ser delegada exclusivamente ao motorista.
O motorista é protagonista da operação, mas a organização cria as condições nas quais ele trabalha.
Um gestor de frota precisa avaliar:
Veículo: está em condições adequadas?
Motorista: está preparado para conduzir em condições adversas?
Rota: possui pontos críticos conhecidos?
Clima: existe previsão de condições severas?
Operação: existe pressão por cumprimento de horários incompatível com a segurança?
Dados: os eventos estão sendo monitorados?
Treinamento: os comportamentos identificados estão sendo trabalhados?
Essa visão sistêmica está alinhada ao conceito de Safe System defendido pela OMS, que considera necessários veículos seguros, velocidades seguras, vias seguras e usuários preparados para reduzir mortes e lesões no trânsito. (Organização Mundial da Saúde)
Treinamento: transformar informação em comportamento
Não basta entregar ao motorista uma lista de recomendações.
É necessário transformar conhecimento em comportamento operacional.
Um programa eficiente de treinamento pode trabalhar situações como:
- condução em pista molhada;
- frenagem em condições de baixa aderência;
- aquaplanagem;
- distância segura;
- leitura antecipada do trânsito;
- direção sob chuva intensa;
- neblina e baixa visibilidade;
- utilização correta dos sistemas de iluminação;
- comportamento em alagamentos;
- tomada de decisão diante de condições severas.
Depois do treinamento, a telemetria pode ajudar a verificar se houve mudança efetiva na condução.
Essa conexão entre treinamento + telemetria + acompanhamento + feedback é muito mais poderosa do que treinamentos isolados.
Um dado importante para mudar a percepção sobre segurança
Os dados da PRF mostram que a maioria dos sinistros não acontece necessariamente em condições meteorológicas extremas.
Em levantamento divulgado pela PRF no Rio de Janeiro referente ao primeiro semestre de 2025, 86% dos casos ocorreram em pistas secas e com boas condições meteorológicas, e mais de 67% ocorreram com céu claro. (Serviços e Informações do Brasil)
Esse dado é extremamente importante.
Ele mostra que não podemos transformar condições atmosféricas em uma espécie de "culpado automático".
A maior parte dos riscos continua relacionada à interação entre comportamento humano, veículo, via e contexto.
Por isso, direção segura e condições atmosféricas devem ser tratadas como parte de um sistema muito maior de gestão de segurança.
Segurança é adaptar a condução, não apenas reduzir velocidade
Uma condução realmente segura não significa simplesmente dirigir mais devagar.
Significa dirigir de acordo com o risco existente.
Em uma pista seca, com boa visibilidade e tráfego normal, determinado comportamento pode ser adequado.
Em uma pista molhada, o motorista deve aumentar sua margem de segurança.
Em uma chuva intensa, pode ser necessário reduzir ainda mais a velocidade.
Em uma situação de visibilidade extremamente comprometida, a decisão mais segura pode ser parar.
Essa capacidade de adaptação é um dos elementos mais importantes da direção defensiva.
Checklist para uma operação mais segura em condições adversas
Para empresas de transporte, algumas práticas podem ser incorporadas à rotina:
- verificar pneus antes da operação;
- verificar limpadores e lavadores de para-brisa;
- conferir iluminação;
- avaliar condições dos freios;
- acompanhar previsões meteorológicas;
- mapear trechos sujeitos a alagamentos;
- orientar motoristas sobre condições adversas;
- reduzir velocidades quando as condições exigirem;
- aumentar distância entre veículos;
- evitar freadas e mudanças bruscas de direção;
- evitar ultrapassagens em baixa visibilidade;
- nunca atravessar áreas alagadas quando não houver segurança;
- interromper a viagem em condições extremas;
- monitorar eventos de condução por telemetria;
- utilizar os dados para treinamento e feedback.
Conclusão: clima muda o cenário, dados mudam a gestão
A relação entre direção segura e condições atmosféricas precisa deixar de ser tratada apenas como uma recomendação de época de chuvas.
Para uma frota profissional, ela representa uma oportunidade permanente de gestão de risco.
Chuva, neblina, vento, baixa visibilidade e pista molhada podem alterar a aderência, a visibilidade e o comportamento necessário para conduzir um veículo com segurança. Porém, os dados mostram que o clima é apenas uma parte do problema.
Em 2025, mais de 72 mil sinistros foram registrados nas rodovias federais brasileiras, enquanto as principais causas apontadas pela PRF incluíram ausência de reação e reação tardia ou ineficiente do condutor. (Serviços e Informações do Brasil)
É justamente nesse ponto que a tecnologia pode contribuir.
Quando a empresa combina telemetria, treinamento, manutenção, análise de rotas e gestão de comportamento, ela deixa de simplesmente reagir aos acidentes e passa a trabalhar na prevenção.
Porque uma frota segura não é aquela que apenas reduz acidentes depois que eles acontecem.
É aquela que consegue identificar riscos antes que eles se transformem em ocorrências.
E, nesse cenário, a pergunta deixa de ser apenas "como o motorista dirige quando chove?".
A pergunta mais estratégica passa a ser:
"Nossa operação está preparada para identificar, antecipar e reduzir o risco antes que as condições atmosféricas transformem um erro de condução em um sinistro?"
Essa é a verdadeira evolução da segurança viária baseada em dados.
Usando o indicador MKBE para monitorar o comportamento dos motoristas
Em uma operação de transporte, saber quantos quilômetros um veículo percorreu é importante. Saber quanto combustível consumiu também. Mas existe uma pergunta ainda mais estratégica: como o comportamento do motorista está influenciando o desempenho da operação?
É justamente nesse ponto que entra o MKBE (Mean Kilometer Between Event), um indicador desenvolvido para relacionar a quilometragem percorrida com a quantidade de eventos de condução registrados pela telemetria. Em termos simples, ele mostra quantos quilômetros, em média, um veículo percorre entre um evento de condução e outro. Quanto maior o resultado, melhor tende a ser a regularidade da condução, desde que os eventos considerados e as condições operacionais sejam comparáveis. Essa aplicação do indicador foi documentada em estudos brasileiros sobre telemetria no transporte urbano de passageiros.
Mais do que produzir um número para um ranking, o MKBE pode transformar grandes volumes de dados de telemetria em uma ferramenta de gestão, treinamento, segurança e eficiência operacional.
E isso é especialmente relevante porque o comportamento ao volante não é um fator isolado. A aceleração excessiva, frenagens bruscas, excesso de velocidade, curvas agressivas, rotações inadequadas e outros eventos podem aumentar riscos, consumo e desgaste do veículo.
Estudos acadêmicos realizados com milhares de veículos demonstram que dados de telemetria são capazes de identificar padrões de comportamento relacionados à segurança viária. Uma pesquisa publicada na revista Accident Analysis & Prevention, por exemplo, analisou dados de aproximadamente 4.000 veículos em Nova York e encontrou associações entre indicadores como frenagens bruscas, acelerações bruscas, velocidade e taxas de colisões.
O que é o MKBE?
A sigla MKBE vem de Mean Kilometer Between Event, ou quilometragem média entre eventos.
A lógica matemática é simples:
MKBE = quilometragem percorrida ÷ quantidade de eventos registrados
Imagine, por exemplo, um motorista que percorreu 1.000 km e registrou 100 eventos de condução considerados na análise.
MKBE = 1.000 ÷ 100 = 10 km/evento
Isso significa que, naquele período, ocorreu em média um evento de condução a cada 10 quilômetros.
Se outro motorista percorreu os mesmos 1.000 km, mas registrou 50 eventos:
MKBE = 1.000 ÷ 50 = 20 km/evento
Nesse cenário, o segundo motorista apresenta uma frequência de eventos menor.
É importante compreender essa lógica porque o MKBE não deve ser interpretado como uma simples "nota do motorista". Ele é um indicador de frequência relativa de eventos, que permite comparar desempenho desde que sejam consideradas as condições de operação.
Essa característica é uma das grandes vantagens do indicador.
Contar simplesmente o número de eventos pode produzir interpretações equivocadas.
Um motorista que percorreu 3.000 km naturalmente terá oportunidade de registrar mais eventos do que outro que percorreu apenas 500 km. Ao relacionar os eventos com a distância percorrida, o gestor consegue transformar o dado absoluto em uma métrica comparável.
Por que monitorar o comportamento do motorista?
A condução representa uma variável operacional extremamente importante porque o motorista interage diretamente com o veículo, a via, o trânsito, a carga ou os passageiros e as condições ambientais.
Em uma frota pesada, pequenas diferenças de comportamento repetidas milhares de vezes podem produzir impactos relevantes.
Uma aceleração agressiva pode representar maior demanda energética.
Uma frenagem brusca pode indicar uma condução menos antecipativa.
Uma curva realizada em velocidade inadequada pode aumentar riscos e esforços sobre o veículo.
O excesso de velocidade reduz o tempo disponível para reação e aumenta a distância necessária para parar. A NHTSA, agência norte-americana de segurança viária, destaca entre as consequências do excesso de velocidade o aumento da distância de parada, maior possibilidade de perda de controle e maior severidade potencial dos acidentes.
Por isso, monitorar comportamento não significa simplesmente procurar erros.
Significa identificar padrões que podem ser transformados em oportunidades de melhoria.
MKBE: de indicador operacional para ferramenta de gestão
Uma das maiores contribuições do MKBE é permitir que o gestor deixe de olhar apenas para eventos isolados e passe a analisar tendências.
Imagine que uma frota tenha apresentado:
- 12 km/evento em janeiro;
- 15 km/evento em fevereiro;
- 18 km/evento em março;
- 22 km/evento em abril.
A evolução sugere que a frequência de eventos caiu em relação à distância percorrida.
Mas o valor mais importante não está apenas no número final.
O gestor precisa perguntar:
O que mudou entre janeiro e abril?
Houve treinamento?
Os motoristas receberam feedback?
Alguma linha foi alterada?
Mudaram os veículos?
Houve alteração no perfil operacional?
Os parâmetros da telemetria permaneceram iguais?
Houve mudança na equipe?
É essa investigação que transforma um indicador em inteligência operacional.
Não compare motoristas sem considerar o contexto
Um dos principais erros na utilização de indicadores de comportamento é comparar pessoas como se todos os motoristas enfrentassem exatamente as mesmas condições.
Isso raramente acontece.
Um motorista que trabalha em uma linha urbana congestionada, com grande quantidade de paradas e arrancadas, enfrenta uma realidade diferente daquele que opera em uma rodovia.
Da mesma forma, um veículo carregado apresenta comportamento diferente de um veículo vazio. Um trecho montanhoso não deve ser comparado diretamente com uma rota plana.
Uma pesquisa publicada pela Transportation Research Part D demonstrou justamente que fatores como velocidade média, frenagens e marcha lenta podem influenciar o consumo de combustível de veículos pesados, mas que o desempenho também depende de fatores externos, como terreno, carga, tipo de veículo e características da operação.
Portanto, o MKBE deve ser utilizado com inteligência.
O objetivo não é simplesmente descobrir "quem tem o maior número".
O objetivo é descobrir quem apresenta determinado comportamento, em qual contexto, com que frequência e qual ação pode melhorar esse resultado.
Quais eventos podem compor o MKBE?
A composição do indicador depende da metodologia adotada pela empresa e dos eventos que deseja monitorar.
Entre os eventos que podem ser utilizados em uma estratégia de acompanhamento estão:
Aceleração brusca
Acelerações excessivas podem indicar condução agressiva e também aumentar a demanda energética do veículo.
Uma pesquisa baseada em mais de 4.000 registros reais de condução no transporte de cargas encontrou relação significativa entre determinados comportamentos agressivos e consumo de combustível, destacando especialmente aceleração agressiva, curvas agressivas e excesso de rotação.
Frenagem brusca
Frenagens bruscas são particularmente importantes para segurança.
Elas podem indicar falta de antecipação, distância inadequada em relação ao veículo à frente ou necessidade de reação diante de uma situação de risco.
Isso não significa que toda frenagem brusca seja responsabilidade do motorista. O contexto precisa ser analisado.
Uma frenagem diante de uma situação inesperada no trânsito é diferente de uma sequência recorrente de frenagens provocadas por condução pouco antecipativa.
Excesso de velocidade
A velocidade é outro componente relevante.
Além dos riscos relacionados à segurança, velocidades elevadas podem alterar consumo, capacidade de reação e severidade de eventuais acidentes.
Pesquisas utilizando grandes bases de dados de telemetria identificaram associação entre excesso de velocidade e risco de colisão em determinados contextos rodoviários.
Curvas agressivas
Curvas também merecem atenção.
O estudo publicado na Operational Research encontrou impacto particularmente relevante de curvas agressivas sobre o consumo de combustível, além de apontar que esse comportamento pode estar associado a outros eventos agressivos de aceleração e desaceleração.
Excesso de rotação
O excesso de RPM pode representar utilização inadequada da faixa de operação do motor e contribuir para menor eficiência.
Em um estudo conduzido com caminhões, a telemetria foi utilizada para acompanhar, entre outros indicadores, RPM, velocidade, eventos de condução e consumo. A intervenção combinando monitoramento, feedback, treinamento e incentivos produziu melhorias expressivas em diversos indicadores.
Como interpretar um MKBE alto ou baixo?
A lógica fundamental é:
Quanto maior a quilometragem média entre eventos, menor a frequência de eventos por quilômetro.
Porém, isso não significa que "quanto maior, sempre melhor" de forma absoluta.
O indicador precisa ser analisado dentro de uma metodologia consistente.
Por exemplo:
Motorista A:
2.000 km / 100 eventos = 20 km/evento
Motorista B:
2.000 km / 50 eventos = 40 km/evento
Em condições semelhantes, o motorista B apresenta uma frequência de eventos menor.
Mas imagine que o motorista A tenha operado uma rota muito mais complexa, com trânsito intenso, enquanto o motorista B atuou em uma operação predominantemente rodoviária.
A comparação direta pode ser injusta.
Por isso, gestores experientes devem trabalhar com grupos de comparação.
Motoristas da mesma linha.
Motoristas do mesmo tipo de veículo.
Operações semelhantes.
Períodos semelhantes.
Condições semelhantes.
Essa segmentação aumenta muito a qualidade da análise.
O MKBE funciona melhor quando associado ao treinamento
Um indicador sozinho não muda comportamento.
Ele apenas mostra o que está acontecendo.
A mudança acontece quando a informação é transformada em ação.
Esse princípio é sustentado por pesquisas sobre telemetria e feedback. Um estudo experimental com mais de 150 veículos e mais de 350 motoristas mostrou que o feedback baseado em eventos de condução reduziu comportamentos de risco entre os motoristas mais problemáticos. O estudo estimou reduções de 8% nos incidentes de segurança e de 3% a 10% no consumo de combustível, com efeitos maiores em veículos de maior porte.
Outro estudo, publicado em 2026, analisou 175 motoristas e 73.869 viagens em um experimento naturalístico de longo prazo. Os pesquisadores observaram que mecanismos de feedback contribuíram para reduzir tempo em excesso de velocidade e eventos de frenagem brusca; o recurso de scorecard apresentou o maior efeito positivo entre os mecanismos avaliados.
Isso reforça uma ideia fundamental:
telemetria não deve ser apenas monitoramento. Deve ser um sistema de aprendizagem operacional.
Como utilizar o MKBE em um programa de evolução dos motoristas
Uma estratégia eficiente pode seguir cinco etapas.
1. Medir
Primeiro, estabeleça uma linha de base.
Registre o MKBE dos motoristas durante determinado período sem alterar significativamente a metodologia.
O objetivo é descobrir qual é o comportamento atual.
2. Identificar
Depois, identifique os principais eventos que estão puxando o desempenho para baixo.
Um motorista pode ter MKBE ruim principalmente por excesso de velocidade.
Outro pode apresentar concentração de frenagens bruscas.
Outro pode ter problemas de aceleração.
Isso significa que o treinamento deve ser individualizado.
3. Orientar
Apresente ao motorista os dados de forma simples.
Em vez de dizer:
"Você está entre os piores da frota."
Mostre:
"Nos últimos 30 dias, você percorreu 3.000 km e registrou 150 eventos. Isso representa um MKBE de 20 km/evento. Os principais eventos são aceleração e frenagem bruscas."
A segunda abordagem é muito mais educativa.
4. Treinar
Depois da identificação, é preciso ensinar a alternativa correta.
Se o problema é frenagem brusca, trabalhe antecipação.
Se é aceleração agressiva, trabalhe progressividade.
Se é excesso de velocidade, trabalhe leitura de cenário, planejamento e controle.
Se é excesso de RPM, trabalhe faixa de operação e utilização adequada do conjunto motriz.
5. Reavaliar
Após o treinamento, volte aos dados.
O MKBE aumentou?
Os eventos diminuíram?
O consumo melhorou?
A condução ficou mais estável?
Houve redução de incidentes?
Essa comparação transforma o treinamento em uma ação mensurável.
MKBE e ranking: cuidado para não transformar gestão em punição
Rankings podem ser excelentes ferramentas de engajamento.
Mas existe uma diferença enorme entre competição saudável e cultura punitiva.
Quando o motorista entende que a telemetria serve exclusivamente para puni-lo, existe uma tendência de resistência.
Quando entende que os dados servem para ajudá-lo a dirigir melhor, o processo pode assumir outra dinâmica.
A experiência documentada no transporte urbano brasileiro com o Grupo NSO é interessante nesse sentido. O projeto de telemetria associou o MKBE ao acompanhamento de desempenho e à orientação dos motoristas, com foco na evolução da condução segura e econômica e evitando uma abordagem predominantemente punitiva.
O mesmo caso relata evolução do indicador MKBE ao longo da implementação do programa e destaca a importância da integração entre Operação, Manutenção e Recursos Humanos.
Esse é um ponto essencial para qualquer gestor:
o objetivo do indicador não deve ser encontrar culpados, mas encontrar oportunidades de melhoria.
O verdadeiro valor está na evolução
Talvez a maior vantagem do MKBE não esteja em saber quem está em primeiro lugar hoje.
Está em saber quem está evoluindo.
Imagine:
| Motorista | MKBE inicial | MKBE atual | Evolução |
|---|---|---|---|
| Motorista A | 12 km/evento | 24 km/evento | +100% |
| Motorista B | 25 km/evento | 28 km/evento | +12% |
| Motorista C | 30 km/evento | 31 km/evento | +3% |
Se analisarmos somente o ranking atual, o motorista A ainda não está em primeiro lugar.
Mas ele apresentou a maior evolução.
Isso pode revelar um motorista que respondeu muito bem ao treinamento e merece reconhecimento.
Portanto, uma boa gestão deve acompanhar pelo menos três dimensões:
resultado atual + evolução + consistência.
MKBE, consumo e manutenção: uma visão integrada
O comportamento do motorista não afeta apenas segurança.
Ele também pode influenciar consumo, pneus, freios, transmissão e outros componentes.
O estudo sobre comportamento de motoristas de carga publicado na Operational Research encontrou evidências de que aceleração agressiva, curvas agressivas e excesso de RPM podem estar relacionados ao aumento do consumo.
Outro estudo sobre condução eficiente em veículos pesados identificou velocidade média, frenagem e marcha lenta como fatores relevantes para o consumo.
Por isso, uma análise madura não deve colocar o MKBE isolado dentro de um painel.
Ele pode ser cruzado com:
- consumo de combustível;
- km/l;
- marcha lenta;
- excesso de velocidade;
- aceleração;
- frenagem;
- RPM;
- utilização do freio motor;
- desgaste de pneus;
- manutenção;
- acidentes;
- reclamações;
- produtividade;
- linha ou rota;
- tipo de veículo.
Essa integração permite descobrir relações que não seriam percebidas observando apenas um indicador.
O MKBE como indicador de cultura operacional
Uma empresa que acompanha MKBE ao longo do tempo começa a criar uma base histórica de comportamento.
E isso é extremamente valioso.
Ao longo dos meses, o gestor consegue identificar:
quais treinamentos funcionam;
quais comportamentos persistem;
quais linhas apresentam maior dificuldade;
quais motoristas evoluem mais rapidamente;
quais veículos apresentam padrões diferentes;
quais horários concentram eventos;
quais rotas exigem abordagens específicas.
A telemetria deixa, então, de ser apenas uma ferramenta de localização e passa a funcionar como uma plataforma de inteligência operacional.
Esse conceito é coerente com pesquisas que demonstram a capacidade de grandes bases de dados telemáticos de produzir indicadores de comportamento e segurança em escala.
O futuro é transformar dados em comportamento
O grande desafio das empresas de transporte não é mais simplesmente coletar dados.
É transformar dados em decisões.
Uma frota moderna pode gerar milhões de registros: posição, velocidade, RPM, aceleração, frenagem, consumo, distância, tempo, rota, eventos e condições de operação.
Mas dados sem interpretação não necessariamente produzem resultado.
O MKBE ocupa um espaço importante justamente porque simplifica uma parte dessa complexidade.
Ele permite transformar uma grande quantidade de eventos em uma pergunta objetiva:
quantos quilômetros meu motorista consegue percorrer antes de gerar um novo evento de condução?
A partir daí, o gestor pode investigar causas, comparar períodos, orientar motoristas, estruturar treinamentos e acompanhar resultados.
Mais importante: pode sair da gestão baseada em percepção e caminhar para uma gestão baseada em evidências.
Conclusão
O MKBE é muito mais do que um número exibido em um painel de telemetria.
Quando corretamente estruturado, ele pode funcionar como um indicador de frequência de eventos de condução e como uma ferramenta para acompanhar a evolução do comportamento dos motoristas.
Seu maior potencial aparece quando é utilizado junto a contexto operacional, treinamento, feedback e outros indicadores de desempenho.
A lógica é simples:
medir → entender → orientar → treinar → acompanhar → evoluir.
E essa lógica muda a função da telemetria dentro da empresa.
Em vez de simplesmente registrar que um motorista freou, acelerou ou excedeu determinada velocidade, a organização passa a compreender com que frequência isso acontece, em quais condições, quais consequências produz e o que pode ser feito para melhorar.
É nesse ponto que a telemetria deixa de ser apenas tecnologia embarcada e passa a ser inteligência aplicada à operação.
Para empresas que buscam mais segurança, menor consumo, maior disponibilidade dos veículos e uma condução mais eficiente, acompanhar o comportamento dos motoristas por meio de indicadores como o MKBE pode ser um passo importante para transformar dados em desempenho real.



